
Sakchai Lalit/Associated Press
Quando eu tinha 12 anos um pombo fez cocô no cabelo da Luiza Dantas. Nós estávamos no pátio da escola, sentadas em uma daquelas mesas coloridas de pedra ao ar livre, provavelmente reproduzindo gracinhas do cartoon network, quando aconteceu. Muita gente riu, e a Luiza, perplexa, chorou de raiva e indignação por muito tempo. Ela sempre fora cheia de exageros. No nosso primeiro dia de aula na escola (entramos juntas no mesmo ano) a porta do banheiro travou prendendo a Luiza lá dentro. Dizem que dava para escutar os gritos dela lá em cima na diretoria. O médico disse que foi uma crise de pânico momentânea e ela ficou uma semana sem ir a aula. No entanto, eu gostava muito disso nela, de como as coisas tomavam proporções fenomenais... ela trazia emoção ao dia-a-dia.
Mas, voltando ao cocô, lembro de repartir com ela um pouco de sua indignação. Você ali, cuidando da sua vida, e de repente, sem mais nem menos, acontece uma fatalidade dessas. Foi definitivamente minha primeira lição sobre os meandros do destino.
Mais tarde, uns três anos depois, aprendi na aula de biologia que as aves, ao contrário dos mamíferos, possuem cloaca e não controlam o momento de suas excreções. Sabem o que isso significa? Que as aves defecam e urinam, tudo junto, de uma só vez. Assim, sem mais nem menos. Mesmo voando. Como se nem fosse com elas...
Depois desse dia, eu passei a ter muito, muito medo de qualquer pássaro que sobrevoasse a minha pessoa, pois eu sabia que era apenas uma questão de tempo para que um deles me acertasse. Afinal, é tudo uma questão de probabilidade, e da matemática ninguém escapa, basta se encaixar no perfil sujeito à possibilidade. O problema-chave era: quão incoveniente seria o momento da cagada. Poderia ser minutos antes de uma entrevista de emprego, no dia do meu aniversário, ou do casamento de alguém, quiçá do meu, quem sabe. Era uma preocupação retumbante. Ainda que ínfima, ela estava lá, como um plus dentre desagradáveis possibilidades...
Até que enfim, ontem, aconteceu. Nove anos depois que uma pomba fez cocô no cabelo da Luiza Dantas, eu fui acertada no braço direito, por volta das seis, bem ali na Bandeirantes, em frente ao Néctar da Serra, em um momento de total distração. Deu tudo certo, ninguém se machucou, a pomba continuou voando enquanto eu fui lavar o braço no banheiro.
Foi um alívio.
Era como se eu tivesse esperado por isso a minha vida inteira.
