segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Do silêncio

O poeta foi embora
Abandonou suas estrelas
suas noites mal dormidas
seus amorzinhos nas estantes
Largou de mão o sofrimento adolescente
Deixou o vendedor de gás falando sozinho no interfone
Esqueceu das montanhas, da avenida que contorna
O poeta foi embora
Lavou a louça e guardou os copos no armário
Esvaziou o cinzeiro
Arrumou a cama
Fez a barba
Saiu pro bar usando roupas limpas,
perfumando de amaciante o mundo afora.
O poeta foi embora
Fazendo pose pra foto,
sorrindo do Prozac novo,
do médico eficiente
da dispolaridade sem graça.
Do amor comedido
Da paixão morna,
o poeta foi embora
Fechando a janela.
Ele bebe menos
Ele chora menos
Ele ama menos
E foi embora, sem olhar para trás.
O poeta não escreve mais.