Na faculdade, as mesas dos alunos são de madeira. Daquelas, bem antigas, modelo anos 60, com o banco acoplado à mesa, que tem um sulco na frente para portar o lápis e um compartimento embaixo pra guardar os cadernos. Quero dizer, a minha não tem esse espaço embaixo, porque a minha tá quebrada.
Essa mesa é de madeira velha, e já absorveu tanta umidade junto com o verniz original que, com o passar dos anos ficou facilmente talhável. Basta forçar um pouquinho o grafite que qualquer coisa pode ser gravada. Qualquer coisa.
A voz do professor é longe... algo sobre Constituição... algo sobre Felicidade... E eu apoiando braços e olhos em 0,2 metros quadrados de história e escrita livre. Uns desenhos avulsos, símbolos recorrentes, devaneios... Uma estrela, corações, C.A.M, um falo, três nomes próprios, Lídia eu te amo, Yankees go home, Manuel, o padeiro louco.
Manuel, o padeiro louco?
MANUEL, O PADEIRO LOUCO.
Manuel tem um bigode volumoso e essa é a primeira coisa que se nota. Do tipo que deve fazer cócegas quando ele sorri. Se ele sorri. Bom, ele sorri, as vezes. Manuel tem pouco mais de 1,60 de altura, 145 de Q.I, uma barriga que brinca no avental branco enquanto faz pães maravilhosos.
São seis horas da manhã e o calor dos pãezinhos de Manuel invade todas as janelas da Rua da Padaria. Em TODAS as janelas homens, mulheres e crianças acordam com as glândulas salivares ativadas. Às sete, roscas açucaradas de leite condensado são expostas nas prateleiras, tortas glaçadas coloridas de morango enfeitam as vitrines, enquanto suspiros acompanham aqueles pedacinhos de nuvens chamados de bolinhos.
O leite está fresco no refrigerador e a bancada do caixa é repleta de pirulitos.
Há muitas pessoas morando na Rua da Padaria. São muitas as pessoas que precisam passar em frente à Padaria de Manuel para ir trabalhar, estudar, ou passear com o cachorro. São todas, pessoas torturadas que passam reto resistindo aos quitutes de Manuel. Dia após dia, ano após ano, NINGUÉM nunca entra na Padaria de Manuel.
É tudo muito atraente, potencialmente saboroso... mas o padeiro é LOUCO! Não dá para confiar em um padeiro louco! Só deus sabe o que se passa na sua cozinha... quem garante seus produtos? São feitos em meio a germes de insanidade! Quando uma coisa provém de outra, ambas possuem necessariamente a mesma natureza. A faculdade de se fazer pães exige normalidade. Não... não dá para atestar veracidade nos pães de um louco.
Semana que vem tem prova.
-Psiu, qual é a matéria?
-Ele acabou de falar!
-Repete aí vai...
-Functores deônticos, princípio da legalidade, leis do império artigos e incisos... você sabe...
-Não sei...
-Devia.
-É...
Manuel é louco, completamente insano, porque insiste facultativamente em fazer pães que ninguém ousa comprar.
