A luz incandescente semi-cerrava os olhos, que só abriam para ver uma máscara de algodão branca, e uns olhões castanhos a três centímetros de distância.
-Ahh, ahh, ahhrgh.
Estalava a mandíbula.
Bicarbonato.
Água. Na boca, no queixo, na testa, no cabelo que tinha acabado de sair do salão de beleza.
-Grrrr... - e um canudinho dependurado no canto da boca sugando saliva, língua, mucosa da bochecha e o que mais surgisse pela frente.
Logo depois, aquele monte de algodão nas glândulas salivares. A boca seca, rachada, sufocando pela pressão atmosférica. O peso de uma coluna inteira de ar que começava no infinito e terminava no fundo da minha garganta.
-Então, com o que você trabalha, estuda....?
-Arghh grrr haww!!!
-Epa epa, língua paradinha!
"Acho que minha mandíbula nunca mais vai voltar ao normal"
Um motorzinho pontudo de metal, ensurdecedor, passando entre os dentes, encostando nas gengivas e um cheiro de resina queimada...
Mais água. Cospe. Muito sangue contrastando naquele ralo branquinho.
Descobri que agora havia dois fios de aço na parte de trás dos meus dentes, superiores e inferiores, interligando os quatro da frente. Faziam pressão entre si quando eu abria e fechava a boca, equinamente sentindo minha mandíbula. No espelho, um sorriso lindo, um sorriso Colgate, um sorriso importado dos United States. Dentes representando uma condição burguesa, reluzindo em uma foto, que será a prova perfeita de um momento forjadamente feliz em que a bochecha doeu de tanto esperar o *clic*. Ludibriação da memória no futuro, cuja única intenção é gerar nostalgia da falsa felicidade pretérita. Para isso, um belo sorriso, dentes impecáveis! E gengiva ardendo, e dentes doendo, e fio dental, e fio de aço, aparelhos, escova de dente, enxaguante bucal, limpeza de seis em seis meses, um bom branqueamento de três em três anos...
-Agora bocheche o flúor por quatro minutos e meio
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-Pode cuspir. Não coma nada nas próximas duas horas ok?
-Humhum...
"Aiai que fome!"
