domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pais e Filhos

Eram quase nove horas e lá estava seu Henrique mais uma vez conversando com a parede do corredor. Eu sei por que eu vi da porta da cozinha, enquanto buscava um copo d’água, entre o jornal nacional e a novela das oito. A mãe e a filha? Estavam na sala de televisão, afundadas cada uma de um lado do sofá, provavelmente nem perceberam. Ou então perceberam, e não deram a mínima. Já estavam cansadas da lunática insistência do homem, que já ocorria há alguns anos. Agora eu, eu não consigo me acostumar com isso não. O homem fica fora o dia inteiro trabalhando, pouquíssimas vezes almoça em casa, e quando chega, mal saiu do banho e já está a lançar palavras vãs contra a branquidão de gesso. É sempre assim sabe? Ele sai do quarto e enquanto atravessa o corredor, não agüenta e pára de frente para a mesma parede. Em pé, mesmo que cansado, às vezes até furioso, ele começa a jogar sentença atrás de sentença, carente de respostas. Cospe palavras que quando não ricocheteiam na cara dele, retornando embaralhadas e sem sentido, escorrem para o assoalho até serem absorvidas para sempre pelo carpete, que tudo abafa.
Sabe, da onde eu venho isso é motivo para comentários e fofocas de muito mau gosto. Eu mesma, confesso, não segurei a língua e já comentei com o Jaques da portaria do prédio do lado uma vez. Ainda bem que o Jaques é um homem sensato e discreto, tudo o que ele fez foi levantar as sobrancelhas, dar de ombros e dizer “Nesse mundo tem doido pra tudo Dona Lourdes, larga de fuxico e deixa o homem.”
Acontece que nesse dia, no caminho de volta para o meu quarto, olhei para o varal e percebi que a filha tinha esquecido mais uma vez de trazer a toalha molhada para a área. Invisível, entrei no começo do corredor onde ficava o quarto dela, há uns cinco metros de onde o seu Henrique estava. Dentro do quarto havia uma porta para o banheiro que ela dividia com o irmão, e que interligava o quarto dos dois. Estava a recolher as toalhas quando, para minha surpresa e maior pesar, do banheiro, pela porta entreaberta, vi Júlio, o filho caçula, sentado na cama sério, conversando com a porta do quarto. Boquiaberta, conclui que o problema devia ser de família, desses de cabeça que passam de pai para filho. Não sei quanto tempo fiquei ali parada observando o menino. Com esforço, ele gesticulava e repetia inúmeras vezes a mesma coisa, como quem tenta explicar pacientemente algo a alguém. No entanto a porta, ouvinte, não lhe respondia nada, é claro, e isso lhe parecia extremamente frustrante. Uma coisa óbvia, eu sei.
Saí do banheiro e fui direto para a área pendurar as toalhas. Entrei no meu quarto, desliguei minha televisão portátil e fiquei a fitar o teto deitada na cama. Você não imagina como aquilo me deixou chateada. Eu que gosto tanto do garoto, que o vi crescer, que tive as saias puxadas tantas vezes por ele, me pedindo chocolates e batata frita... Foi muito, muito triste ver que a loucura tinha tomado conta da cabeça dele também, sabendo do descaso que a mãe e a irmã já tinham para com a doença do pai.
Fiquei pensando quanto tempo duraria essa insistência dos dois, quanto tempo levaria para que percebessem (se de fato o fizessem) que paredes e portas não pensam como a gente! Paredes e portas possuem uma perspectiva totalmente diferente e por isso tendem a ser um tanto intransigentes, o que dificulta muito o diálogo.