domingo, 10 de julho de 2011

Carta ao poeta (a outro poeta)

Querido Rosa,

Conversemos,
sob a sombra da antiga jabuticabeira que ocupa nosso quintais.
Permita que o vento fresco carregue nossas palavras para além dos dias que virão.
Que nossas angústias, numerosas como as estrelas que cobrem essa pequena cidade,
espaireçam graciosas feito a fumaça dos nossos cigarros de palha.
E assim, armados contra qualquer desavença, me responda caro amigo,
qual era essa necessidade incontrolável de criar o Desamor?
Saíste desvairado cuspindo neologismos e, inconsequente,
geraste nova forma de tristeza para toda uma nação de brasileiros.
Sabes bem? Somos tantos passionais nessa língua...
E dentre tantas outras coisas indizíveis por dizer,
escolheste justamente nomear novo punhal para os corações daqueles que sofrem.
Batizaste simplesmente o sentimento que não é, que não está, e que tanto faz...
Percebes que bloqueaste de vez qualquer anterior intento de investidura?
Afinal, pondere, que reação cabe ao Desamor? Ao mais puro descaso?
Anulaste o sublime com leviano prefixo,
que sai agora, sem olhar para trás, de mãos dadas à Indiferença.

Rosa...
Deste nome à ausência,
à falta de...
Criaste um porquê para o abraço que já foi,
e para o beijo que não é.
Aos olhos longes, ao meio sorriso
Deste um motivo.
Ahh Rosa... sacrificaste a abençoada ignorância dos amantes em prol da palavra...